Saúde em Dia
HIV: tire suas dúvidas sobre os testes de diagnóstico

Entenda por que é importante fazer e como funcionam os testes para detectar o vírus causador da Aids

Cerca de 36 milhões de pessoas vivem com HIV em todo o mundo. No Brasil, são 781 mil - cerca de 0,4% da população. No entanto, de acordo com um levantamento do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS(UNAIDS), uma em cada cinco pessoas que têm HIV no Brasil desconhece sua sorologia - ou seja, aproximadamente 145 mil pessoas.
Esse número já foi mais alto. Em 2006, também segundo um relatório da UNAIDS, 66% dos soropositivos brasileiros não sabiam que eram portadores do vírus. Esse quadro foi revertido graças à modernização dos testes e a extensas campanhas de incentivo à testagem. O primeiro dos exames surgiu em 1985 e, hoje, é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
E as campanhas têm tido efeito. De acordo com dados do Ministério da Saúde, foram 9,6 milhões de testes realizados de janeiro a setembro de 2015 -- um aumento de 22% em relação ao mesmo período de 2014. Ainda segundo o órgão, aproximadamente 44 mil novas infecções pelo HIV foram detectadas em 2013 no Brasil -- representando um aumento de 11% em relação ao ano anterior. Mas, segundo Ricardo Vasconcelos, infectologista do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, a relação entre o maior número de casos de HIV entre a população e o maior número de testes feitos não são mera coincidência. "É preciso levar em consideração que o Brasil está testando cada vez mais pessoas", contextualiza. "Naturalmente, quanto mais testes são feitos, maior será o número de diagnósticos positivos".
Fazer a testagem para HIV é rápido e muito simples. Abaixo, você pode tirar todas as suas dúvidas a respeito do teste: qual a importância, quem pode fazer, quando se deve fazer, quais testes estão disponíveis hoje, como eles são feitos e onde encontra-los. 

Por que fazer o teste?
"A testagem é importante para preservar o sistema imunológico das pessoas", afirma Roberto de Jesus, coordenador do programa Quero Fazer, de incentivo à testagem. Conhecer a sorologia é essencial para que o soropositivo tenha acesso ao tratamento. Sem ele, que é feito com medicamentos antirretrovirais, a pessoa fica suscetível à ação do HIV no organismo e, no médio a longo prazo, terá seu sistema imunológico comprometido, a ponto de ficar vulnerável a todo e qualquer tipo de doença - as chamadas infecções oportunistas. Esse estágio da infecção é conhecido como Aids (sigla em inglês para Síndrome da Imunodeficiência Adquirida).
Com os remédios, no entanto, o soropositivo vive muito bem, obrigado. Ao contrário de antigamente, hoje quem tem HIV não fica com a aparência esquálida e com manchas no corpo. "Isso acontece graças à ação dos antirretrovirais, que controlam a carga viral de HIV no sangue e impedem que a Aids se manifeste", afirma Vasconcelos.
Além disso, seguir o tratamento corretamente mantém a quantidade de vírus no sangue em níveis baixos, e quanto menor a carga viral, menores são as chances de o soropositivo transmitir o vírus para alguém.

Quem pode fazer o teste?
Todo mundo. HIV não vê cara, nem coração. Por ser uma doença sexualmente transmissível, qualquer pessoa que mantenha relações sexuais com alguém - seja um parceiro fíxo ou múltiplos parceiros - está suscetível ao vírus. Foi-se o tempo em que a Aids era conhecida como a "peste gay". Hoje, está mais do que comprovado que homens e mulheres heterossexuais também contraem o vírus HIV. Inclusive, o número de infecções dentro desses grupos só tem aumentado, justamente pelo equívoco de que somente homossexuais precisam fazer o teste.
Além disso, ainda resiste a falsa ideia de que somente pessoas fora de um relacionamento estável estão sujeitas a contrair o vírus. De acordo com dados levantados pelo Sistema de Informações de Agravo de Notificações (Sinan), o número de mulheres heterossexuais, casadas ou com parceiro fixo, aumentou muito nos últimos anos, principalmente entre aquelas que se encontram em relacionamentos duradouros. Um dos principais motivos para isso, ainda segundo o Instituto, é a ausência do preservativo nas relações sexuais.

Quando fazer o teste?
O teste anti-HIV deve ser feito pelo menos 30 dias após uma situação de risco. Entende-se por situação de risco as ocasiões em que um indivíduo pode ter tido contato com o vírus, seja por meio de uma relação sexual sem camisinha, compartilhamento de seringas, transfusão de sangue ou reutilização de objetos cortantes.
Não se deve fazer o exame imediatamente após a exposição porque o organismo demora no mínimo 30 dias para reconhecer a presença de HIV na corrente sanguínea e, assim, começar a produzir anticorpos contra ele. E como os testes de diagnóstico buscam esses anticorpos na amostra de sangue colhida, se o exame for feito dentro deste período o resultado pode dar negativo mesmo que a pessoa já esteja infectada. A esses 30 dias dá-se o nome de janela imunológica.
Apesar de não poder ser identificado em testes durante a janela, o indivíduo pode, sim, transmitir o vírus para outra pessoa. Por isso que é importante sempre fazer sexo com camisinha.

Que opções de testes existem?

Testes convencionais
O teste convencional foi o primeiro a ser desenvolvido. A ele, dá-se o nome de Ensaio Imunoenzimático, ou ELISA, como é mais conhecido. Até hoje, ele é o mais utilizado para diagnosticar a presença ou não do HIV no organismo.
Os profissionais de laboratório colhem uma amostra do sangue do paciente e buscam por anticorpos contra o vírus. Se a amostra não apresentar nenhuma célula de defesa específica para o HIV, o resultado é negativo e, então, oferecido ao paciente. Porém, caso seja detectado algum anticorpo anti-HIV no sangue, é necessária a realização de um teste adicional, o chamado teste confirmatório, para que se tenha certeza absoluta do diagnóstico. Nele, os profissionais buscam por fragmentos de HIV na corrente sanguínea do paciente.
O teste convencional é realizado em laboratórios ou postos de saúde das redes pública e privada e demora alguns dias para ficar pronto. Geralmente, ele é indicado por um clínico geral para ser feito juntamente com testes para identificar outras doenças sexualmente transmissíveis, ou, ainda, quando o médico pede um hemograma para uma varredura geral do sangue do paciente.

Teste rápido
Há quem pense que o resultado do teste rápido, por sair bem mais rapidamente do que no teste convencional, não seja tão confiável e seguro. No entanto, o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, órgão vinculado ao Ministério da Saúde, assegura que a confiabilidade dos testes rápidos é exatamente a mesma que a dos outros testes oferecidos.
Além disso, ele funciona da mesma forma que o teste convencional, com a diferença de que o resultado sai no mesmo dia, cerca de trinta minutos até duas horas após a realização do exame. Isso permite que o paciente fique sabendo do resultado no momento da consulta médica e receba o aconselhamento pré e pós-teste, muito importante para esclarecer dúvidas a respeito das formas de transmissão e também de tratamento.
Para fazer o teste rápido, basta comparecer ao Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) mais próximo de sua casa. Nele, é possível fazer testes rápidos também para sífilis, hepatite B e hepatite C -- e tudo de graça. O atendimento nesses centros é totalmente sigiloso e oferece ao paciente o atendimento com um médico infectologista e também o aconselhamento com um profissional, independentemente do diagnóstico ser positivo ou negativo. Nos CTAs, você também pode pegar preservativos, géis lubrificantes, além de kits de redução de danos para usuários de drogas.

Fluído oral
O teste de fluido oral é a mais recente modalidade de testagem incorporada à realidade brasileira. Para realizar o exame, é necessário retirar uma amostra do fluido presente na boca, principalmente das gengivas e da mucosa da bochecha, com o auxílio de uma haste coletora. O resultado sai em 30 minutos e pode ser realizado em qualquer lugar, dispensando estruturas laboratoriais. No entanto, o teste de fluido oral serve apenas como triagem para o paciente. "Somente o fluido oral não é suficiente para determinar o diagnóstico de HIV", explica Tainah Lobo, secretária de Vigilância em Saúde do governo federal. "É preciso realizar outro teste rápido posteriormente, desta vez com uma amostra de sangue do paciente, para que se possa chegar a um resultado".
O fluido oral ainda é uma novidade e não foi incorporado totalmente à rede pública. Por enquanto, ele só está disponível em algumas farmácias e em ONGs parceiras do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, sendo utilizado principalmente por pessoas que, devido a inúmeros fatores sociais, possam estar sob maior de risco de contrair HIV. Quando estiver disponibilizado para todas as pessoas, no entanto, o novo teste poderá ser utilizado até mesmo como autoexame - tal qual o teste de farmácia de gravidez.
Para alguns, no entanto, o fluido oral ainda precisa ser amplamente discutido antes que seja oferecido em escala nacional. Para Rafael Agostini, antropólogo e ativista na área de HIV/Aids, existe a possibilidade de o teste ser utilizado como forma de testagem compulsória para pessoas em situação de vulnerabilidade social. "Apesar disso, acredito que o teste disponível em farmácias amplia a possibilidade de diagnóstico de quem não quer, não pode ou não consegue chegar ao serviço de saúde", afirma.

Testes confirmatórios
São usados como testes confirmatórios os exames Western Blot, o Teste de Imunofluorescência indireta para o HIV-1 e o Imunoblot. Eles são requeridos somente quando o resultado de testes convencionais ou testes rápidos é positivo. Eles são necessários porque, algumas vezes, os exames podem dar resultados falso-positivos em decorrência de algumas doenças, como artrite reumatoide, doenças autoimunes e alguns tipos de câncer não diagnosticados.
Ao contrário do que acontece na primeira testagem, os exames confirmatórios não procuram por anticorpos contra HIV na amostra de sangue do paciente, e sim por fragmentos do próprio vírus. Com isso, é impossível que haja um equívoco no diagnóstico.
Se o resultado do teste confirmatório também der positivo, então o paciente é encaminhado novamente à assistência médica, onde receberá as instruções e o acolhimento que necessita para dar entrada no tratamento.